07:44

O mundo precisa de mais "Florbelas". Minha inspiração portuguesa


"O meu mundo não é como os dos outros, quero mais, exijo demais, há em mim uma sede de infinito, uma angústia constante que nem eu mesma compreendo, pois estou longe de ser uma pessoa, sou antes de tudo uma exaltada, com alma intensa, violenta, atormentada. Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudades...
sei lá de quê!"

"Quem me dera encontrar o verso puro, O verso altivo e forte, estranho e duro, Que dissesse a chorar isto que sinto!"


BIOGRAFIA

Mesmo antes de seu nascimento, a vida de Florbela Espanca já estava marcada pelo inesperado, pelo dramático, pelo incomum.

Seu pai, João Maria Espanca era casado com Maria Toscano. Como a mesma não pôde dar filhos ao marido, João Maria se valeu de uma antiga regra medieval, que diz que quando de um casamento não houver filhos, o marido tem o direito de ter os mesmos com outra mulher de sua escolha. Assim, no dia 8 de dezembro de 1894 nasce Flor Bela Lobo, filha de Antónia da Conceição Lobo. João Maria ainda teve mais um filho com Antónia, Apeles. Mais tarde, Antónia abandona João Maria e os filhos passam a conviver com o pai e sua esposa, que os adotam.

Florbela entra para o curso primário em 1899, passando a assinar Flor d’Alma da Conceição Espanca. O pai de Florbela foi em 1900 um dos introdutores do cinematógrafo em Portugal. A mesma paixão pela fotografia o levará a abrir um estúdio em Évora, despertando na filha a mesma paixão e tomando-a como modelo favorita, razão pela qual a iconografia de Florbela, principalmente feita pelo pai, é bastante extensa.

Em 1903, aos sete anos, faz seu primeiro poema, A Vida e a Morte. Desde o início é muito clara sua precocidade e preferência a temas mais escusos e melancólicos.

Em 1908 Antônia Conceição, mãe de Florbela, falece. Florbela então ingressa no Liceu de Évora, onde permanece até 1912, fazendo com que a família se desloque para essa cidade. Foi uma das primeiras mulheres a ingressar no curso secundário, fato que não era visto com bons olhos pela sociedade e pelos professores do Liceu. No ano seguinte casa-se no dia de seus 19 anos com Alberto Moutinho, colega de estudos.

O casal mora em Redondo até 1915, quando regressa à Évora devido a dificuldades financeiras. Eles passam a morar na casa de João Maria Espanca. Sob o olhar complacente de Florbela ele convive abertamente com uma empregada, divorciando-se da esposa em 1921 para casar-se com Henriqueta de Almeida, a então empregada.

Voltando a Redondo em 1916, Florbela reúne uma seleção de sua produção poética de 1915 e inaugura o projeto Trocando Olhares, coletânea de 88 poemas e três contos. O caderno que deu origem ao projeto encontra-se na Biblioteca Nacional de Lisboa, contendo uma profusão de poemas, rabiscos e anotações que seriam mais tarde ponto de partida para duas antologias, onde os poemas já devidamente esclarecidos e emendados comporão o Livro de Mágoas e o Livro de Soror Saudade.

Regressando a Évora em 1917 a poetisa completa o 11º ano do Curso Complementar de Letras, e logo após ingressa na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Após um aborto involuntário, se muda para Quelfes, onde apresenta os primeiros sinais sérios de neurose. Seu casamento se desfaz pouco depois.

Em junho de 1919 sai o Livro de Mágoas, que apesar da poetisa não ser tão famosa faz bastante sucesso, esgotando-se rapidamente. No mesmo ano passa a viver com Antônio Guimarães, casando-se com ele em 1921. Logo depois Florbela passa a trabalhar em um novo projeto que a princípio se chamaria Livro do Nosso Amor ou Claustro de Quimeras. Por fim, torna-se o Livro de Soror Saudade, publicado em janeiro de 1923.

Após mais um aborto separa-se pela segunda vez, o que faz com que sua família deixe de falar com ela. Essa situação a abalou muito. O ex-marido abriu mais tarde em Lisboa uma agência, “Recortes”, que enviava para os respectivos autores qualquer nota ou artigo sobre ele. O espólio pessoal de Antônio Guimarães reúne o mais abundante material que foi publicado sobre Florbela, desde 1945 até 1981, ano do falecimento do ex-marido. Ao todo são 133 recortes.

Em 1925 Florbela casa-se com Mário Lage no civil e no religioso e passa a morar com ele, inicialmente em Esmoriz e depois na casa dos pais de Lage em Matosinhos, no Porto.

Passa a colaborar no D. Nuno em Vila Viçosa, no ano de 1927, com os poemas que comporão o Charneca em Flor. Em carta ao diretor do D. Nuno fala da conclusão de Charneca em Flor, e fala também da preparação de um livro de contos, provavelmente O Dominó Preto.

No mesmo ano Apeles, irmão de Florbela, falece em um trágico acidente, fato esse que abalou demais a poetisa. Ela aferra-se à produção de As Máscaras do Destino, dedicando ao irmão. Mas então Florbela nunca mais será a mesma, sua doença se agrava bastante após o ocorrido.

Começa a escrever seu Diário de Último Ano em 1930. Passa a colaborar nas revistas Portugal Feminino e Civilização, trava também conhecimento com Guido Batelli, que se oferece para publicar Charneca em Flor. Florbela então revê em Matosinhos as provas do livro, depois de tentar o suicídio, período em que a neurose se agrava e é diagnosticado um edema pulmonar.

Em dois de dezembro de 1930, Florbela encerra seu Diário do Último Ano com a seguinte frase: “… e não haver gestos novos nem palavras novas.” Às duas horas do dia 8 de dezembro – no dia do seu aniversário Florbela D’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos, ingerindo dois frascos de Veronal. Algumas décadas depois seus restos mortais são transportados para Vila Viçosa, “… a terra alentejana a que entranhadamente quero”.

FONTES:
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/projtelecolab/tintalusa/
numerodois/tl3.html

http://purl.pt/272/2/index.html

http://www.torre.xrs.net/

Coleção “A Obra Prima de Cada Autor” – Editora Martin Claret

05:34

AS RAZÕES DO AMOR por Rubem Alves


Os místicos e os apaixonados concordam em que o amor não tem razões. Angelus Silésius, místico medieval, disse que ele é como a rosa:
"A rosa não tem "porquês". Ela floresce porque floresce".

Drummond repetiu a mesma coisa no seu poema As Sem-Razões do Amor. É possível que ele tenha se inspirado nestes versos mesmo sem nunca os ter lido, pois as coisas do amor circulam com o vento.

"Eu te amo porque te amo..." - sem razões... "Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Meu amor independe do que me fazes. Não cresce do que me dás. Se fosse assim ele flutuaria ao sabor dos teus gestos. Teria razões e explicações. Se um dia teus gestos de amante me faltassem, ele morreria como a flor arrancada da terra".

"Amor é estado de graça e com amor não se paga".
Nada mais falso do que o ditado popular que afirma que "amor com amor se paga". O amor não é regido pela lógica das trocas comerciais. Nada te devo. Nada me deves. Como a rosa que floresce porque floresce, eu te amo porque te amo. "Amor é dado de graça, é semeado no vento, na cachoeira, no eclipse. Amor foge a dicionários e a regulamentos vários... Amor não se troca... Porque amor é amor a nada, feliz e forte em si mesmo"...

Drummond tinha de estar apaixonado ao escrever estes versos. Só os apaixonados acreditam que o amor seja assim, tão sem razões. Mas eu, talvez por não estar apaixonado (o que é uma pena...), suspeito que o coração tenha regulamentos e dicionários, e Pascal me apoiaria, pois foi ele quem disse que "o coração tem razões que a própria razão desconhece". Não é que faltem razões ao coração, mas que suas razões estão escritas numa língua que desconhecemos.

Destas razões escritas em língua estranha o próprio Drummond tinha conhecimento, e se perguntava: "Como decifrar pictogramas de há 10 mil anos se nem sei decifrar minha escrita interior? A verdade essencial é o desconhecido que me habita e a cada amanhecer me dá um soco." O amor será isto: um soco que o desconhecido me dá?

Ao apaixonado a decifração desta língua está proibida, pois se ele a entender, o amor se irá. Como na história de Barba Azul: se a porta proibida for aberta, a felicidade estará perdida. Foi assim que o paraíso se perdeu: quando o amor - frágil bolha de sabão - não contente com sua felicidade inconsciente, se deixou morder pelo desejo de saber. O amor não sabia que sua felicidade só pode existir na ignorância das suas razões. Kierkegaard comentava o absurdo de se pedir aos amantes explicações para o seu amor. A esta pergunta eles só possuem uma resposta: o silêncio. Mas que se lhes peça simplesmente falar sobre o seu amor - sem explicar. E eles falarão por dias, sem parar...

Mas - eu já disse - não estou apaixonado. Olho para o amor com olhos de suspeita, curiosos. Quero decifrar sua língua desconhecida. Procuro, ao contrário do Drummond, as cem razões do amor...

Vou a Santo Agostinho, em busca de sua sabedoria. Releio as Confissões, texto de um velho que meditava sobre o amor sem estar apaixonado. Possivelmente aí se encontre a análise mais penetrante das razões do amor jamais escrita. E me defronto com a pergunta que nenhum apaixonado poderia jamais fazer: "Que é que eu amo quando amo o meu Deus?" Imaginem que um apaixonado fizesse essa pergunta à sua amada: "Que é que eu amo quando te amo?" Seria, talvez, o fim de uma estória de amor. Pois esta pergunta revela um segredo que nenhum amante pode suportar: que ao amar a amada o amante está amando uma outra coisa que não é ela. Nas palavras de Hermann Hesse, "o que amamos é sempre um símbolo". Daí, conclui ele, a impossibilidade de fixar o seu amor em qualquer coisa sobre a terra.

Variações sobre a impossível pergunta:
"Te amo, sim, mas não é bem a ti que eu amo. Amo uma outra coisa misteriosa, que não conheço, mas que me parece ver aflorar no seu rosto. Eu te amo porque no teu corpo um outro objeto se revela. Teu corpo é lagoa encantada onde reflexos nadam como peixes fugidios... Como Narciso, fico diante dele... No fundo de tua luz marinha nadam meus olhos, à procura... Por isto te amo, pelos peixes encantados..."(Cecília Meireles)

Mas eles são escorregadios, os peixes. Fogem. Escapam.
Escondem-se. Zombam de mim. Deslizam entre meus dedos.

Eu te abraço para abraçar o que me foge. Ao te possuir alegro-me na ilusão de os possuir. Tu és o lugar onde me encontro com esta outra coisa que, por pura graça, sem razões, desceu sobre ti, como o Vento desceu sobre a Virgem Bendita. Mas, por ser graça, sem razões, da mesma forma como desceu poderá de novo partir. Se isto acontecer deixarei de te amar. E minha busca recomeçará de novo..."

Esta é a dor que nenhum apaixonado suporta. A paixão se recusa a saber que o rosto da pessoa amada (presente) apenas sugere o obscuro objeto do desejo (ausente). A pessoa amada é metáfora de uma outra coisa. "O amor começa por uma metáfora", diz Milan Kundera. "Ou melhor: o amor começa no momento em que uma mulher se inscreve com uma palavra em nossa memória poética."

Temos agora a chave para compreender as razões do amor: o amor nasce, vive e morre pelo poder - delicado - da imagem poética que o amante pensou ver no rosto da amada...

Rubem Alves, teólogo, filósofo e psicanalista brasileiro.

03:57

Um dia de luta


História do Dia Internacional da Mulher, significado do dia 8 de março, lutas femininas, importância da data e comemoração, conquistas das mulheres brasileiras, história da mulher no Brasil, participação política das mulheres, o papel da mulher na sociedade brasileira


Bom, gostaria primeiramente de parabenizar todas as mulheres pelas conquistas desses últimos anos. Conquistas que não foram fáceis, pois a sociedade na sua maioria é machista e os homens sempre pensaram que lugar de mulher é em casa, cuidando dos filhos e da casa. Eu particularmente fui criada num regime onde meu pai trabalhava viajando e a maior parte da minha educação me foi dada pela minha mãe que mesmo ausente, fazia papel de pai e mãe. Sei como é difícil para uma mãe criar os filhos sozinhos. Mas esta não é a questão. Vamos aos fatos do reconhecimento desta data marco onde muitas coisas começaram a mudar por conta de atos covardes como este da sociedade machista. Vamos aos fatos. Após a expansão industrial e econômica, as mulheres eram submetidas a horas de trabalho de no mínimo 16hs, sem condições adequadas para o trabalho. Isso foi decorrente da revolução industrial, onde os burgueses comprando e se apoderando de máquinas e terras ocasionaram o grande deslocamento dos camponeses aos grandes centros onde os mesmo eram obrigados a viverem em condições péssimas de trabalho e moradia. Já no ano de 1857 as mulheres empregadas em fábricas de vestuário e indústria têxtil foram protagonistas de um desses protestos em 8 de Março 1857 em Nova Iorque, em que protestavam sobre as más condições de trabalho e reduzidos salários. A classe burguesa, machista e covarde ao invés de negociarem acharam uma forma de resolver este problema. Existem outros acontecimentos que podem provar a tese como o incêndio na fábrica da Triagle Shirtwaist, que também aconteceu em Nova Iorque, em 25 de março de 1911, onde morreram 146 trabalhadoras. Segundo esta versão, 129 trabalhadoras durante um protesto teriam sido trancadas e queimadas vivas. O incêndio da Triangle Shirtwaist continua como o pior incêndio da história de Nova Iorque. Muitos ainda tentam relutarem considerar este acontecimento como um mero acidente e não como uma execução. Muitos outros protestos se seguiram nos anos seguintes ao episódio de 8 de Março, destacando-se um outro em 1908, onde 15.000 mulheres marcharam sobre a cidade de Nova Iorque exigindo a redução de horário, melhores salários, e o direito ao voto. Assim, o primeiro Dia Internacional da Mulher observou-se a 28 de Fevereiro de 1909 nos Estados Unidos da América após uma declaração do Partido Socialista da América. Em 1910, a primeira conferência internacional sobre a mulher ocorreu em Copenhaga, dirigida pela Internacional Socialista, e o Dia Internacional da Mulher foi estabelecido. No ano seguinte, esse dia foi celebrado por mais de um milhão de pessoas na Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suíça, no dia 19 de Março. No entanto, logo depois, um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist mataria 140 costureiras; o número elevado de mortes foi atribuído às más condições de segurança do edifício. Além disto, ocorreram também manifestações pela Paz em toda a Europa nas vésperas da Primeira Guerra Mundial. Objetivo da Data
Ao ser criada esta data, não se pretendia apenas comemorar. Na maioria dos países, realizam-se conferências, debates e reuniões cujo objetivo é discutir o papel da mulher na sociedade atual. O esforço é para tentar diminuir e, quem sabe um dia terminar, com o preconceito e a desvalorização da mulher. Mesmo com todos os avanços, elas ainda sofrem, em muitos locais, com salários baixos, violência masculina, jornada excessiva de trabalho e desvantagens na carreira profissional. Muito foi conquistado, mas muito ainda há para ser modificado nesta história.



Conquistas das Mulheres Brasileiras

Podemos dizer que o dia 24 de fevereiro de 1932 foi um marco na história da mulher brasileira. Nesta data foi instituído o voto feminino. As mulheres conquistavam, depois de muitos anos de reivindicações e discussões, o direito de votar e serem eleitas para cargos no executivo e legislativo.


Espero que ao longo de todos estes anos nossa sociedade aprenda cada vez mais sobre a importância das mulheres não só no mercado de trabalho mas como cidadãs que elas são. Espero que exista ainda muitas mulheres guerreiras no futuro como já existiram ao longo da nossa história: Joana d'Arc, Princesa Isabel, Olga Benário, Anita Garibald, Evita Perón e muitas outras que merecem reconhecimento e deveriam estar aqui neste texto. Espero que as mulheres de hoje sejam como estas. Que não tolerem mais abuso de marido e nem aceite condições que já foram deixadas no passado. Que vocês mulheres tenham um maravilhoso dia internacional das mulheres pois é por vocês que estamos aqui. Mulheres que dão a vida pelos seus filhos. Sou admiradora das mulheres no sentido do que ela representa: a sua arte de dar a luz e poder contribuir com o seu carinho e afeto para um mundo melhor. Espero que a nossa sociedade seja consciente para que possa reconhecer o papel da mulher e seus direitos e deveres em nossa sociedade.


Dedico este texto a todas as mulheres do mundo.” FELIZ DIA INTERNACIONAL DA MULHER! Que Todo os dias sejam o dia da mulher, afinal ele completa a existência do ser.

19:43

Minha admiração: Flora Tristan


Ela poderia ter sido mais uma escritora nascida na corte de Napoleão Bonaparte mas, superando todos os problemas de sua vida pessoal, Flora Tristan, foi uma das expressões socialistas de sua época, usando a palavra para denunciar as péssimas condições em que vivia a classe operária na França, e sobretudo a posição de submissão em que se encontrava a mulher na sociedade.

Filha de mãe francesa e pai peruano, Flore Celestine Therèse Henrietti, nasceu em Vaugirard, Paris, em abril de 1803. Moravam num espaçoso casarão nas cercanias de Paris, que era freqüentado pelo líder revolucionário venezuelano, Simon Bolivar, quando seu pai, oficial do exército espanhol, foi morto em batalha contra a França. A viuva foi obrigada a mudar-se para uma pequena propriedade rural, vivendo em condições extremamente modestas com seus filhos.

Quando Flora completou quinze anos, mudaram- se para Paris, onde arrumou emprego no atelier do ilustrador André- François Chazal, um homem de futuro promissor e que viria a ser seu marido em fevereiro de 1821. Flora vivia um relacionamento tumultuado com o marido, que era rude com a esposa, chegando a agredi-la fisicamente. O casamento revelou-se um fracasso e durou de fato apenas três anos, dando a Flora três filhos e muitas preocupações. Apesar de viver no período do Romantismo e acreditar, desde a adolescência, que o amor fosse como a uma religião, Flora passou a vida evitando qualquer forma de contato que a levasse a perder o controle da situação.

Apesar de saber escrever e ler precariamente, Flora possuía grande interesse pela leitura, principalmente de assuntos ligados às condições da sociedade da época, em especial, da posição inferior da mulher em relação ao homem. Flora questionava as vantagens legais que os maridos detinham sobre as esposas e dizia que a mulher era a pária da sociedade, vivendo sempre a sombra do marido, sem nenhum tipo de direito, apenas deveres a serem cumpridos e total submissão.

Flora e a sociedade francesa

Flora viveu num período em que a sociedade e o mundo enfrentavam as grandes transformações motivadas pela Revolução Industrial. A máquina aumentava a produção e consequentemente, os lucros dos donos dos meios de produção, sem no entanto, melhorar as condições de vida dos operários, foi um período em que os banqueiros tiveram lucros espetaculares e os operários se tornaram miseráveis. Escritores e filósofos denunciavam os baixos salários e a exploração de mão-de-obra dos trabalhadores, formulando teorias a respeito do socialismo, uma corrente ainda recente e extremamente utópica, mas repleta de seguidores apaixonados. Porém, esses intelectuais que buscavam a liberdade e a igualdade entre os homens, ainda não estavam preparados para aceitar a participação ativa da mulher na sociedade e sua condição de igualdade em relação ao homem e, assim, as primeiras obras de Flora Tristan receberam fortes críticas dos escritores de sua época.

Flora viajou a países como Peru, Inglaterra e Itália, sempre atenta as condições da sociedade local. No Peru, criticou a questão da escravidão e na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, verificou que os operários viviam em situação ainda pior do que na França. Nessas viagens fez uma autocrítica e percebeu que ainda mantinha uma visão preconceituosa e fechada em relação aos aspectos culturais de outros países, sempre os comparando à França. Porém, o resultado dessas viagens foi positivo, e ela realizou sua primeira obra, “Peregrinações de uma pária”.

As ameaças de Chazal

Apesar de todas as suas preocupações sociais, Flora vivia um drama em sua vida privada. Seu marido, Chazal, da qual estava separada, insistia em persegui-la e constantemente a ameaçava. Como a lei que concedia o divórcio havia sido revogada ainda sob o reinado de Louis 18, a escritora não possuía meios legais de barrar as investidas do marido, sofrendo todo o tipo de represálias e agressões. As discussões tiveram seu auge quando, numa emboscada, Chazal atirou em Flora com a clara intenção de tirar-lhe a vida, atingindo duas balas próximo a seu coração. Os disparos não foram fatais, Flora se recuperou e como ela mesma disse “ Deus engoliu as duas balas” , que ficaram alojadas em seu peito. Apesar da aparente recuperação, isto foi enfraquecendo sua saúde, ocasionando sua morte, alguns anos depois.

Antes de morrer, porém, Flora teve tempo de realizar outras viagens e adquirir novos conceitos para embasar sua idéias. Voltando a Inglaterra, teve contato com o operariado inglês, que por ter problemas mais complexos e antigos era também mais combativo e organizado em relação ao francês. Retornando a seu país, teve a idéia de realizar uma grande viagem ao interior da França para esclarecer as massas a respeito do socialismo e da igualdade de direitos entre os homens, pondo em prática os conhecimentos adquiridos em suas viagens e no contato com os pensadores de sua época.

Mesmo com a saúde fragilizada, Flora realizou a empreitada, indo de cidade em cidade mobilizando as pessoas e participando ativamente de paralisações e manifestações. Ficou com a fama de ser agitadora e subversiva e por diversas vezes foi convidada a se retirar dessas cidades.

Flora, em vida, foi considerada como uma das personalidades mais notáveis do socialismo francês no reinado de Louis Philippe (1830-1848), deixando suas reflexões libertárias e socialistas em obras como União Operária, entre outras, que serviram de consulta até mesmo para Marx, que reconheceu seu valor em sua obra A Sagrada Família. No entanto, depois de seu falecimento, em 14 de novembro de 1844 na casa de amigos, foi aos poucos sendo esquecida, até mesmo pelos estudiosos do socialismo, tornando muito difícil encontrar relatos e escritos sobre sua vida e sua obra.

19:26

Marcus Aranha, com seu Anayde Beiriz. Panthera dos olhos dormentes


Os tempos eram difíceis para as mulheres, na primeira metade do século XX. Isso não significa que, em nossos dias, a vida seja um mar de rosas. Mas, algumas conquistas podem ser contabilizadas de lá para cá. E Anayde Beiriz deu sua contribuição para mudar o comportamento das mulheres e o olhar da sociedade sobre elas.
Marcus Aranha, com seu Anayde Beiriz. Panthera dos olhos dormentes (João Pessoa: Manufatura, 2005), não me deixa mentir. Apaixonado pela inteligente e bela paraibana (e ele que não negue essa paixão...), fez-se acompanhar de Vanildo Brito e Lau Siqueira; pediu e recebeu ajuda de amigos (tal como registra nos agradecimentos), e preparou um livro que é um retrato de corpo inteiro da professora de Cabedelo.
Aranha muniu-se de farta documentação cedida pela família Beiriz. Publica uma galeria das personagens da época; reproduz documentos preciosos e organiza e transcreve as cartas trocadas entre Anayde Beiriz e Heriberto Paiva, entre agosto de 1924 e agosto de 1926, conservadas no diário da moça. Evitando a longa defesa de qualquer tese, Aranha, com fina sensibilidade, deixa que Anayde e Heriberto se mostrem e nos mostrem aqueles tempos.
As cartas... o principal interesse do livro. Ah! as cartas... Já disse o poeta que todas as cartas de amor são ridículas, e não seriam cartas de amor se não fossem ridículas. São ridículas até quando testemunham o rompimento da relação amorosa. Mas, que gostoso e poético ridículo emana das cartas de amor... (até mesmo das de rompimento...). Triste de quem nunca as escreveu ou que não tenha oportunidade de escrevê-las.
Anayde e Heriberto falam e falam e falam de amor, de beijos, de saudades. Sonham e sonham e sonham. Anayde, na Parahyba, apaixonada, romântica, fala de casinha, de flores, de filhos. Ele, no Rio de Janeiro, não faz por menos e até escolheu o nome dos filhos desejados: Ruth e Fernando. Trocam cartões e fotos e contam o quanto beijam as fotos. A linguagem não perde a elegância e a correção. O estudante de medicina pede fios de cabelo. A escritora e colaboradora de periódicos manda os fios de cabelo e explica que são curtos, pois usa o cabelo à la garçonne. Arrufam-se por qualquer frase ou expressão não bem interpretada e pedem desculpas e perdoam-se sempre – afinal, resistir, quem há-de?
Os enamorados mantêm-se discretos e pouco falam de intimidades. Encontramos, então, uma Anayde que, quando se confessa ardente, apaixonada, vibrante..., explica, imediatamente: Temi muitas vezes que os meus olhos te revelassem o que eu queria que tu desconhecesses e só agora, (e isto porque está longe e não me podes ver tão cedo), eu tenho ânimo de revelar-me aos teus olhos, tal qual sou. (1) Mas, Anayde estava à frente de seu tempo. Assim, na mesma carta, mostra-se: Não me creias uma mulher romântica, piedosa, dessas que amam pacífica e sinceramente, mas sem intensidade e sem ardor, essas mulheres que sabem ser esposas, sabem ser mães, mas não sabem ser amantes. Todavia, eis que o pudor fala mais alto, e ela escreve: Sei que não é bonito isso que te estou a dizer, mas a confiança que tenho em ti leva-me a falar-te deste modo./ Perdoa-me, meu Amor, se te magoei com a minha franqueza; se impelida pelo meu afeto, estimulada pela minha paixão, estendi-me demais. (p. 71-72).
Ele, por sua vez, em um dos raros momentos de confissão explícita do desejo, escreve, depois de uma cópula epistolar: como me alegraria ao ver-te perder as forças lentamente dominada por mim, enquanto os teus lábios desejosos murmuram o nome de Henry!...(2) Porém, retornando às regras ditadas pelo pudor, o apaixonado ressalva: Amor: perdoa-me estas palavras insensatas, que não são senão o resumo de tudo o que sinto, de tudo o que o meu cérebro, embriagado pela idéia do amor, sonha. (p. 81).
Só mesmo a ditadura dos comportamentos de época e a delicadeza diante da amada para fazer um estudante de medicina se esquecer da anatomia e da fisiologia... e assentar toda responsabilidade no cérebro.
Não pense o/a leitor/a que vai ler cartas devassas. Aranha nos oferece a rara oportunidade de entrar na discreta intimidade de um par romântico. Moça culta, bem formada, Anayde mantém as regras do tempo. Cavalheiro, falando em casamento, em família, Heriberto jamais se aproxima do escatológico, do escandaloso.
Porém, lendo com outros olhos, o trabalho de Aranha, ao transcrever essas cartas, nos traz uma sociedade pretensamente aristocrática, rigidamente estratificada em classes, provinciana e maledicente. O leitor perceberá a capacidade de uma madrasta para instaurar o clima de suspeita, de preconceito e de intriga.
Aranha nos oferece uma bela história de amor com um final triste. As duas últimas cartas revelam o abismo entre dois universos. Anayde, ferida pela suspeita estúpida de Heriberto, escreve-lhe dando algumas explicações (verdadeiras, como daria qualquer mulher apaixonada, injustamente julgada e tentando se defender). Ele não espera resposta a sua carta de rompimento, ditada pelo ciúme, e manda a última carta a Anayde.
Caríssimo/a leitor/a, nada disso é ficção. Aranha nos entrega uma histórica narrativa epistolar de uma grande paixão, a ser reencontrada nos documentos transcritos. Havia, sim, uma sociedade metida a besta; que, se não fosse tão pedante e autoritária, Anayde seria esposa de Heriberto, e João Pessoa até poderia ter sido eleito vice-presidente da República.
Mas, Anayde, mulher livre para amar, encontrou em João Dantas aquilo que a estupidez do ciúme de Heriberto lhe negou: a possibilidade de amar e de ser amada em perfeita, completa e integral cumplicidade. Depois disso, só lhe restava a Morte.
Com certeza, Marcus Aranha, atribuir a Anayde Beiriz o epíteto de “mulher macho” é grosseiro e não traduz a personalidade dessa minha “avó” tão feminina. Contudo, revela que, para algumas pessoas, inclusive Tizuka Yamasaki, mulher com o perfil de Anayde Beiriz não passa de vadia... ou de masculinizada (como se coragem para amar e ser inteligente fossem atributos exclusivos do macho). Lamento o quanto essa mentalidade passa longe da compreensão da trágica vida de uma de minhas “antepassadas”. Anayde Beiriz foi mulher fêmea, sim, senhor – e com coragem bastante para se suicidar quando perdeu João Dantas, o último amor de sua tão curta vida.Parabéns! Marcus Aranha, por devolver à Paraíba e às mulheres brasileiras Anayde Beiriz, apaixonada, inteligente, sonhadora, romântica, amada, pudica e ferida.
Notas
1- Na transcrição, Marcus Aranha manteve a ortografia da época. Aqui, cito com atualização.2- Hery: forma carinhosa e cúmplice de tratamento usado por Anayde, para se dirigir a Heriberto.

19:07

Anayde Beiriz, Paraíba masculina

Anayde Beiriz escandalizou a sociedade retrógrada da Paraíba nos anos 30. Sensual e libertária, ela era publicamente a favor da autonomia feminina.

Revendo a história da década de 30 sob uma faceta diferente daquela vivida por Olga Benário, vamos contar esta semana a história de Anayde Beiriz, cuja paixão serviu também como estopim para a Revolução de 30, na Paraíba. Poetisa e professora, ela escandalizou a sociedade retrógrada da Paraíba com o seu vanguardismo: usava pintura, cabelos curtos, saía às ruas sozinha, fumava, não queria casar nem ter filhos, escrevia versos que causavam impacto na intelectualidade paraibana e escrevia para os jornais.Anayde Beiriz nasceu em 1905 em João Pessoa. Diplomou-se pela Escola Normal em 1922, com apenas 17 anos, destacando-se como primeira aluna da turma. Além de normalista, era poeta e amante das artes. Logo que se formou, passou a lecionar na colônia de pescadores perto de sua cidade natal. Em 1925, ganhou um concurso de beleza. Circulava também nos meios intelectuais, onde declarava-se publicamente a favor da liberdade e da autonomia feminina. Sendo uma mulher emancipada para os costumes do seu tempo, Anayde perturbou a sociedade conservadora da Paraíba, nos anos 30. Ousou exprimir uma sensibilidade que chocou o modelo de moralidade prevalente: sua maneira de se vestir (o uso dos decotes), o corte dos cabelos, "à la garçonne", que eram pintados, as suas idéias políticas (quando as mulheres não tinham sequer o direito ao voto) e a maneira de vivenciar o amor livre causaram escândalo. Em 1928, iniciou seu romance com o deputado João Dantas, que era adversário de João Pessoa, candidato à presidência da Paraíba. Em 1930, o Brasil sofreu reviravoltas importantes. A chamada política do "café com leite" centralizava o poder entre os Estados de São Paulo e Minas Gerais. O bloco político, do qual a Paraíba fazia parte, interveio nas disputas políticas, que se tornaram violentas e as questões pessoais se misturaram às questões da vida pública. A ligação amorosa entre João Dantas e Anayde Beiriz não era bem vista pela hipocrisia social, uma vez que não eram casados. Prato feito para os inimigos políticos de João Dantas, que sob as ordens de João Pessoa, arrombaram a casa, apropriaram-se da correspondência erótica do casal e publicaram-na nos jornais da cidade. Sensual e libertária, Anayde foi duramente exposta à sociedade paraibana. O que era uma invasão de cunho político, mobilizou todo o Brasil ao ganhar o contorno de uma grande paixão, vivida às escondidas. No dia 26 de julho, João Dantas, furioso com a publicação de suas cartas de amor, correu pela cidade atrás do mandante e ao encontrá-lo disse: "Sou João Duarte Dantas, a quem tanto injuriaste e ofendeste". Matou com três tiros João Pessoa e logo em seguida foi preso. Este ocorrido serviu de pivô para uma convulsão nacional que sucumbiu na Revolução de 30. A morte de João Pessoa comoveu todo o Brasil, pois ele nesta época já era muito famoso, ao ter concorrido à presidência como vice de Getúlio Vargas. Em outubro daquele ano o movimento revolucionário foi deflagrado e Anayde passou a ser perseguida e apontada na rua como "a prostituta do bandido que matou o presidente." Logo depois, João Dantas morreria em circunstâncias misteriosas. Anayde se matou na prisão, ingerindo veneno. Foi enterrada como indigente e sua memória foi renegada durante anos pelos paraibanos. Sua imagem só se tronou emblemática quando foi elegida como uma das personagens míticas da história do Brasil, pelo movimento feminista. Mas, até hoje, sua memória causa desconforto naquela região. Hoje, a sua história, tematizada no teatro, no cinema e na literatura, instiga a pensar sobre a intersecção entre os fatos da vida privada e da vida pública, no contexto da história nacional. A encenação da vida de Anayde Beiriz nos chama a atenção para as "dobras do lado de dentro" da história oficial, isto é, a dimensão do intimismo no contexto da experiência pública. Ficou conhecida como a "Paraíba masculina, mulher-macho sim senhor".

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Anayde Beiriz:."PANTHERA DOS OLHOS DORMENTES"




“ Paixão e morte na Revolução de 1930”
COADJUVANTES DA HISTÓRIA

A história oficial que todos conhecem normalmente se concentra nos fatos principais e nos personagens mais relevantes. Porém sempre existem aqueles personagens que agem nos bastidores e que não se destacam no primeiro plano dos fatos, mas sua presença e ações acabam influenciando de forma indelével o rumo da história. Normalmente por injustiça ou simplesmente por um excesso de simplificação dos fatos históricos, estes personagens acabam sendo desconhecidos da maioria das pessoas.E nesta categoria de coadjuvantes da história oficial, as mulheres são presença garantida. Muitas vezes a sua presença acaba mudando a história. Foi por causa de Ana Bolena que Henrique VIII rompeu com a igreja católica e implantou o anglicanismo na Inglaterra, só para citar um exemplo.E na nossa história temos algumas mulheres interessantes, que estiveram ao lado de personagens poderosos ou participaram ativamente da história, sem serem devidamente lembradas. Anita Garibaldi, Ana Nery, Maria Quitéria, Xica da Silva, Marquesa dos Santos, entre outras.Na história do Brasil do século XX, uma mulher acabou envolvida com personagens que sairiam da vida para entrar na história, e os fatos que vivenciaram culminaram com a “Revolução de 30”, a qual mudou a história do Brasil por completo. Seu nome era Anayde Beiriz.A paraibana Anayde Beiriz nasceu em 18 de fevereiro de 1905. Durante os estudos, acabou se destacando nos mesmos. Formou-se na Escola Normal no início dos anos 20 e passou a ensinar para pescadores da então vila de Cabedelo.Anayde era uma bela mulher, tanto que ganha um concurso de beleza promovido em 1925 pelo Correio da Manhã. Mas o que chamava a atenção eram os seus olhos negros, os quais lhe valeram a alcunha, entre os amigos, de “pantera dos olhos dormentes”. Se considerarmos a mentalidade conservadora da sociedade brasileira à época, especialmente a paraibana, Anayde não era bem vista devido a suas idéias progressistas. Ela estava envolvida em movimentos artísticos, pois era poetisa e freqüentava saraus literários, defendia a participação das mulheres na política em uma época que elas sequer podiam votar. Também ousava pelas roupas que usava, abusando de decotes, e pelo corte de cabelo, “a lá garçonne”. Não era afeita as convenções no que tange a relacionamentos amorosos. E foi um destes relacionamentos que a fez entrar para a história.
O AMOR EM TEMPOS DE CÓLERAEm 1928, ela começa um relacionamento amoroso com o advogado João Dantas. Este está envolvido na política local, e sua família estava alinhada com os Suassuna. Era um “perrepista”, os assim chamados àqueles que apoiavam o Partido Republicano e a candidatura oficial do governo. Com o conflito entre liberais e perrepistas se acirrando após as eleições e as escaramuças na cidade de Princesa, o advogado acaba se refugiando em Recife, mantendo o relacionamento com Anayde à distância, através de cartas.João Pessoa, acuado pelos adversários, reage e manda revistar as casas dos revoltosos e suspeitos, em busca de armas que poderiam ser utilizadas em uma revolta armada. Uma destas casas foi o apartamento do advogado João Dantas na capital da Paraíba, a época também chamada Paraíba. A Polícia invade o misto de escritório e morada do advogado em 10 de julho de 1930. Não são encontradas armas, mas durante a invasão, os policiais destroem o escritório e arrombam o cofre. Lá encontram a correspondência de Dantas, incluindo as cartas e poemas de amor entre ele e Anayde.Neste ponto há uma controvérsia, pois se tornou comum nos livros de história afirmar que esta correspondência teria sido publicada no jornal do governo estadual, A União. Alguns afirmam que isso não ocorreu, mas que as cartas teriam circulado de mão em mão. De qualquer forma, o teor altamente escandaloso dos poemas e cartas tornou-se de conhecimento público, causando escândalo.
Sentindo-se ferido em sua honra, João Dantas quis lavá-la com sangue. E o fez. No dia 26 de julho, quando João Pessoa estava na Confeitaria Glória, em Recife, João Dantas, acompanhado de um cunhado Augusto Caldas, entra e dispara contra o peito do Presidente da Paraíba. A morte de João Pessoa causa comoção geral na Paraíba e no país, e é o estopim que desencadeia o levante dos revoltosos, que se rebelam em definitivo em outubro, pouco antes da posse de Júlio Prestes. Um mês depois, Getúlio se estabelece como Presidente, a princípio provisoriamente, mas ele estaria presente na vida pública em dois mandatos presidenciais, e sairia apenas quando morto, em agosto de 1950. Na Paraíba, a capital é renomeada para o atual nome de João Pessoa, e a bandeira se inspira no “Nego”, adotando a expressão, além das cores vermelha e negra, representando o sangue e o luto, respectivamente.
Já Anayde se sentiu acuada após o assassinato de João Pessoa, pois todos a perseguiam por razões morais e políticas. Ela abandona sua casa e vai morar em um abrigo na cidade de recife. Lá passa a visitar João Dantas, preso imediatamente após o crime. Este é achado morto nos primeiros dias da Revolução, supostamente por suicídio, mas em circunstâncias pouco claras. A própria Anayde é encontrada morta em 22 de outubro daquele ano, supostamente por envenenamento, sendo enterrada como indigente no cemitério de Santo Amaro.A memória de Anayde foi resgatada principalmente após a publicação do livro de José Jofilly, intitulado “Anayde – Paixão e Morte na revolução de 30”. Em 1983 Tizuka Yamasaki dirige o filme “Paraíba Mulher Macho”, no qual procura contar a história da Revolução de 30 sob a ótica do caso João Dantas e Anayde Beiriz.
UM LIVRO CONTESTA A HISTÓRIA
Aproveitando o centenário de nascimento da poetisa, o médico e escritor Marcus Aranha lançou a poucos dias o livro “Anayde Beiriz – Panthera dos Olhos Dormentes”. O enfoque deste livro, ao contrário do livro de José Joffily, não são os fatos históricos da Revolução de 30. De fato, o médico traz novos fatos sobre a vida amorosa de Anayde, e polemiza ao afirmar que o grande amor de Anayde não teria sido João Dantas, e sim o jovem estudante de medicina Heriberto Paiva, que posteriormente teria se tornado oficial da Marinha. Para escrever este livro, o autor utilizou-se de trechos do diário de Anayde, cartas, documentos pessoais, alguns inéditos, material fornecido por familiares da poetisa e professora.
Ao se ler a correspondência de Anayde, pode se ter uma idéia da personalidade daquela mulher, um misto de romantismo e ousadia. Abaixo transcrevemos um trecho de uma carta enviada a Heriberto Paiva, a quem ela chamava carinhosamente de “Hery”.
“(...) O amor que não se sente capaz de um sacrifício não é amor; será, quando muito, desejo grosseiro, expressão bestial dos instintos, incontinência desvairada dos sentido, que morre com o objetivar-te, sem lograr atingir aquela atura onde a vida se torna um enlevo, um doce arrebatamento, a transfiguração estética da realidade... E eu não quero amar, não quero ser amada assim... Porque quando tudo estivesse findo, quando o desejo morresse, em nós só ficaria o tédio; nem a saudade faria reviver em nossos corações a lembrança dos dias findos, dos dias de volúpia de gozo efêmero, que na nossa febre de amor sensual tínhamos sonhado eternos.
Mas não me julgues por isto diferente das outras mulheres; há, em todas nós, o mesmo instinto, a mesma animalidade primitiva, desenfreada, numas, pela grosseria e desregramento dos apetites; contida, nobremente, em outras, pelas forças vitoriosas da inteligência, da vontade, superiormente dirigida pela delicadeza inata dos sentimento ou pelo poder selético e dignificador da cultura.
Não amamos num homem apenas a plástica ou o espírito: amamos o todo. Sim, meu Hery, nós, as mulheres, não temos meio termo no amor; não amamos as linhas, as formas, o espírito ou essa alguma coisa de indefinível que arrasta vocês, homens, para um ente cuja posse é para vocês um sonho ou raia às lides do impossível. Não, meu Hery, não é assim que as mulheres amam. Amam na plenitude do ser e nesse sentimento concentram, por vezes, todas as forças da sua individualidade física ou moral.
É pois assim que eu te amo, querido; e porque te amo, sinto-me capaz de esperar e de pedir-te que sejas paciente. O tempo passa lento, mas passa...
...E porque ele passa, e porque a noite já vai alta, é-me preciso terminar.
Adeus. Beija-te longamente, Anayde”
PARA SABER MAIS Além do livro de José Jofilly e do novo livro de Marcus Aranha, também foi lançada a biografia de João Dantas há poucos anos. E, em João Pessoa, estão sendo promovidos eventos e exposições em comemoração ao centenário de Anayde. A casa da poetisa, onde atualmente funciona uma cantina, foi tombada pelo patrimônio histórico desde 2002, graças a iniciativa de pesquisadores.